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A flor de jade

7/4/2020

Amor.
Você lembra quando compramos aquela muda de jade? Faz muito tempo. Plantei aquela mudinha de trepadeira e ela cresceu. Cuidei dela durante anos. E nunca deu uma flor. Aliás, só aconteceu uma vez, nem lembro direito, quando apareceu um tímido cacho de flor de jade. Ficamos decepcionados. Parecia que a planta estava com vergonha. E nunca mais deu flor.

Ontem, dia 6 de abril, uma segunda-feira, olho para trepadeira e vejo um enorme cacho de jade. Já crescido e... lindo! Notei que tem mais um cacho vermelho e grande na parte de cima da planta, mas está sobre a folhagem e não dá pra ver bem, porque não está caído. Então são 2 cachos de jade.

Mais uma vez imagino que isso é um sinal vindo de você, mandando sinais de que está por perto e fazendo coisas diferentes, que só eu e você sabemos e entendemos, como foi com o beija-flor, e agora com a jade.

A jade é o brilho vindo de você, com vigor, dizendo que você está bem, brilhante, viva e jovial. Isso me dá muito conforto porque indica que você está comigo e cuidando de mim. Estou de bem com a vida.

Saudades. Te Amo. 




A volta do beija-flor


Estou muito feliz e reconfortado. Estávamos eu, meus pais (Ary e Fernanda) e meu filho (Tadeu) na sala de jantar e cozinha, quando Tadeu gritou apontando um beija-flor que voava dentro de casa, rodando na cozinha e na sala de jantar, sobre nossas cabeças. Fui tomado por uma euforia, ao ver o beija-flor balançando as asas na minha frente. Isso durou 10 segundos, porque abri as janelas da cozinha e ele foi embora saindo pela área de serviço.

Fiquei emocionado. Era a Regina dando sinal que eu tanto queria. O beija-flor apareceu dentro de casa me dizendo que a minha amada está perto de nós, nos olhando, nos cuidando. Tudo isso tem um significado, ou não. Depende apenas de como desejamos viver a vida. Segundo o Bernardo, o beija flor tem a energia da Regina. E, se ele veio até nós, é porque a Regina está entre nós. Sempre!

O aparecimento do beija-flor dentro de casa me deu paz. De alguma forma, a Regina encontrou um jeito de me dizer que está bem. Passei o resto do dia, e do seguinte, pensando por que o beija flor voltou exatamente no dia 27-03-2020 às 9 horas e pouco da manhã. Deveria haver uma razão. 

Curiosamente, eu e Regina, sempre víamos o beija flor voando entre as helicônias, se alimentando delas, nos meses anteriores de sua partida. E sempre estávamos na sala de jantar ou na cozinha, para vê-lo durante longo tempo, diariamente. Por que ele voltou nesse dia e horário? Alguma explicação havia de existir. E algo me veio à mente, que faz todo sentido.

No dia 27-02-2020, dia anterior ao falecimento da minha amada, aconteceu algo muito marcante... e mágico. Nesse dia, a Regina já estava muito sedada, sob efeito de remédios fortes intravenosos, que praticamente a colocava em sono profundo continuamente, com raríssimos momentos de consciência. Sabíamos que vivíamos a reta final.

Por volta das 9 horas e pouco da manhã, de forma surpreendente e inesperada, a Regina acordou em plena paz, com semblante tranquilo, com aparente saúde e falou conosco. Bernardo, Tadeu, Lizandro (técnico de enfermagem do serviço de homecare) e eu estávamos na sala (onde montamos um quarto para ela) e a Suely na cozinha.

Regina colocou a mão no rosto do Bernardo e disse que ele deveria estar com febre, por conta do sol que pegou no carnaval. Ela fez carinho no Bernardo e no Tadeu. Disse que estava se sentindo bem, que não sentia dor, que estava tranquila, em paz, e pediu para que todos não se preocupassem com ela. Ela se virou para mim, pôs a mão no meu rosto, me acariciou, e pediu para eu ficar tranquilo. Olhou para o Lizandro e agradeceu todo o carinho dele. Eu chamei a Suely, que veio da cozinha para falar com a Regina, e também recebeu o carinho dela.

Eu sentia a clara sensação que estávamos vivendo ali um momento divino, algo extraordinário estava acontecendo. Eu sentia uma enorme paz, um bem estar profundo e um sentimento que a Regina estava realmente bem, sabendo do desfecho e nos acalmando. A minha sensação é que a sala estava iluminada, havia uma luz divina sobre nós naquele momento. Havia muita energia no ar e aquele instante era o ápice de tudo que havíamos vivido. A minha sensação é que eu não estava mais diante da Regina que eu conhecia, mas sim diante de uma santa, uma divindade, alguém que já não estava mais na Terra. Eu nunca havia sentido isso antes. Foi algo cercado de magia e luz. Esse momento profundo e aparentemente infinito, durou apenas 7 minutos, aproximadamente.

A Regina agradeceu todo mundo, pelo cuidado, amor e carinho que todos davam a ela. A minha amada falava com uma voz pausada e carinhosa, sorrindo, dando luz, paz e conforto para todos. Aquilo foi de fato uma despedida. Ali ela estava nos deixando e dizendo que estava indo em paz, de bem com a vida, com amor no coração e carinho por todos. Durante aqueles minutos eu me senti em paz.

Aquele foi o último momento de consciência da Regina. Desde aquele momento, até o dia seguinte, dia 28-02, às 11h35, quando ela faleceu, ela não teve mais consciência.

A volta do beija flor no dia 27-03-2020, por volta das 9 horas e pouco, foi exatamente 1 mês depois desse momento mágico que descrevi acima. Parece que a minha amada, na forma de beija flor, veio até nós para nos dizer que está bem, que está em paz, que está nos olhando e cuidando da gente, que está liberta e feliz.

É impossível dimensionar o tamanho da minha felicidade e paz de espírito com esse voo do beija flor sobre nossas cabeças. Foi algo que mostra que ainda conseguirei me relacionar com a minha amada daqui para frente.

Ao longo dos dias 27 e 28-03-2020, por diversas vezes, eu senti rajadas de brisa forte me refrescando, de corpo e alma, me dando sinais de que a Regina está ao meu redor, me cuidando e se comunicando comigo. E, desde esse acontecimento, o beija-flor vem todos os dias beijar as helicônias. Isso tudo me dá mais confiança de seguir em frente, sempre com ela do meu lado.


O beija-flor


A nossa amada Regina nos deixou em 28 de fevereiro de 2020. 

A nossa de sala de jantar na casa do Recreio tem uma janela enorme para o jardim, onde nós vemos uma helicônia gigante, que é uma planta linda, muito verde, com flores exóticas e coloridas, que a Regina adorava.

Nas últimas semanas de vida da Regina, eu e ela passávamos muito tempo nessa sala. Pela enorme janela nós vínhamos um beija-flor bailar por entre as flores, por longo períodos, “beijando” todas as flores. Muitas vezes ele pousava para descansar, o que não nos parecia algo comum para beija-flores. Foi assim durante semanas ao longo dos meses de janeiro e fevereiro. Para nós, era sempre o mesmo beija-flor.

Assim que a amada Regina nos deixou em 28 de fevereiro, eu e meus filhos Tadeu e Bernardo ficamos na casa do Recreio por 7 dias seguidos. E, nesse período de tempo, por muitas e muitas vezes, o beija-flor voltou ao mesmo local, agora sem mais a Regina entre nós. Aquilo batia forte em meu coração. Bernardo se emocionava porque dizia que o beija-flor era a Regina, vindo nos ver para ver se estava tudo bem. Foi assim ao longo de 7 dias, durante diversos momentos ao longo dos dias. O beija-flor ali, sempre voando ou pousado, nos olhando. No último dia, antes de sairmos de casa, o Bernardo fez um vídeo, que está anexado nesse texto. No dia seguinte a casa ficou vazia, pois partimos para Paraty, e depois fui para São Paulo com Bernardo. Fiquei ausente da casa do Recreio por 7 dias.

Hoje, quando escrevo esse texto, já faz 3 dias que estou na casa do Recreio novamente, e nunca mais o beija-flor veio passear nas helicônias. Todas as vezes que me encosto no parapeito da janela, ou me reclino na cadeira da mesa de jantar, tento ver o nosso amigo alado... mas ele não está lá.

Bernardo diz que faz sentido que ele tenha partido. Ele acha que a energia da nossa amada Regina ficou no beija-flor, que acompanhou a gente nos dias seguintes para ver a gente de perto. Mas com a gente viajando, a casa esvaziando, ele, ou ela, também tomou outro rumo e a energia agora está em outros lugares. Em toda parte, na verdade.

As vezes eu sinto uma saudade profunda, chega a doer, mesmo sentindo que ela está o tempo todo dentro de mim. É algo muito bom e positivo. Fico pensando o tempo todo nela.

A história do beija-flor vai ficar para sempre entre nós. Ele, ou ela, acompanhou a gente, viu que estamos bem, e se foi.


Catarata

Ontem à noite a minha mãe fez a cirurgia da catarata. Foi um sucesso. Trouxe ela pra minha casa. Após décadas passadas, nós dormirmos juntos na mesma cama novamente. Foi muuuito divertido. Antes ela cuidava de mim, agora eu cuido dela, como tem que ser. Ela estava espirituosa, relaxada, feliz, falante e trajada de pirata, afinal ela tinha um tampão no olho direito. Hoje, de manhã, ao acordar, rimos um bocado. Contei que eu não lembrava que ela roncava muito alto, e ela me disse que eu também tenho um ronco de leão. Enfim, concluímos que fizemos uma sinfonia de metais(graves!!) durante a madrugada. 
Hoje cedo, ainda com um tampão transparente na olho, ela me disse que já estava vendo tudo. Na mesa do café, na euforia da novidade, peguei a primeira coisa que tinha na mesa para ela ler e mostrar como estava afiada a visão. Ela pegou o pote e leu: "molho de chimichurri". 
Em resumo, a primeira leitura da minha mãe pós cirurgia foi: "chimichurri" 

Aniversário

Meu sobrinho de 11 anos me liga para dar os parabéns pelo aniversário: "Tio, parabéns!"
Pergunto a ele: "Você sabe quantos anos eu estou fazendo hoje?"
A linha fica muda. Acho que ele não estava preparado para isso.
Repito a mesma pergunta.
Ele responde: "71?"
Aí pensei em falar: "Puxa, você passou perto"
Mas fiquei com medo dele responder: "73?"
Foi melhor não perguntar

Aparelho

Fui enganado!!
Hoje foi retirado o aparelho fixo dos meus dentes, mas descobri que terei que usar um aparelho móvel por um ano. Além disso tem uma tal de contenção que ficará presa nos dentes de baixo por toda a vida. Frustração total!!
A retirada do aparelho fixo é uma experiência dantesca. É bem verdade que eu me acostumei com os instrumentos de tortura medieval usados pela minha querida dentista ao longo dos 2 últimos anos. São alicates de corte, torniquetes, alicates de bico, toda sorte de tortura que você pode imaginar aplicada à sua boca... quase as mesmas ferramentas que encontramos na malinha do técnico eletricista e do torneiro hidráulico que vão na sua casa para fazer a obra da cozinha, sacou? Enfim, foram pequenas torturas mensais ao longo do tempo, mas foi na retirada do aparelho que a dentista teve a chance de usar todo o arsenal medieval. Foi quase um Dia D, uma espécie de invasão da Normandia na sua boca.
Independentemente de tudo isso, hoje voltei a comer milho na espiga, pequeno mimo que não tive nos últimos 2 anos.

Lanchinho

Vôo de hoje de BH para o Rio.
Tô lá no fundão do avião. Chega um cara fortão, halterofilista com certeza, cabelo espetado, camiseta amarela destacando o bração, tênis vermelho e mochila verde da Nike nas costas.
O voo levanta e as aeromoças da GOL começam a servir a deliciosa água pra gente. Imediatamente o fortão abre a mochila que estava abaixo de suas pernas e tira uma... marmita e... uma colher.
Antes que me perguntem: era frango, arroz, cenoura e alface.
Ahhhh, antes que me perguntem também: o cheiro da comida invadiu o avião todo.

Raio-X

Cena de hoje no aeroporto, às 5h45 da manhã.
Estou na fila do raio-x e na minha frente tem um senhor muito humilde com uma mochila bem surrada. Ele coloca a mochila no raio-x. A mochila não sai do outro lado. O segurança vai e volta com a mochila várias vezes. Sinto que está rolando um burburinho entre os seguranças. Todos se falando pelo rádio.
O segurança pede para o senhor abrir a mochila, sendo cercado pelos seguranças do aeroporto. Rola uma apreensão no ar. O senhor abre a velha mochila de forma rápida. Surge uma furadeira muito velha e uma longa extensão elétrica.
O segurança exclama: "O senhor não pode levar isso dentro do avião".
Ele responde: "Eu tenho essa furadeira tem mais de 20 anos" - E fala baixinho para ele mesmo: "Bem que minha mulher disse que isso ia dar problema".

Saí da confusão sem esperar a conclusão. Olhei para um dos seguranças que exclamou: "Pensamos que podia ser uma arma".
Quinze minutos depois , caminhando pela área de embarque, surge o senhor com a mochila nas costas. Não resisti e perguntei pela furadeira. Ele bateu com as mãos nas costas, dando a entender que a querida furadeira estava dentro da mochila. E disse - "falei para eles que a furadeira só funciona se for ligada na tomada", e sorriu.

Terceira idade

Acabei de pousar em Congonhas e cruzar com um grupo de terceira idade, que certamente estava embarcando para uma viagem. Todos de cabeça branca, alguns poucos carecas. Muitos casais. Algumas bandeirinhas coloridas nas mãos dos guias. Todos felizes, sorrindo, se abraçando, alguns se conhecendo pela primeira vez. Uma sensação imensa de felicidade e serenidade. Deu uma vontade danada de me juntar ao grupo e participar da caravana.

Banheiro

Na sala de embarque no aeroporto de Viracopos.
Mãe e filha sentadas perto de mim.
Estamos em frente às portas dos banheiros masculino e feminino.

A filha fala para a mãe:
-- Mãe, eu nunca entrei num banheiro masculino.

A mãe responde:
-- É para não entrar mesmo.

A conversa continua:
-- Mas eu queria saber como é que é.
-- Pra que? Você é menina.
-- É curiosidade.
-- É tudo igual. Banheiros dos homens e mulheres são a mesma coisa.
-- Não é não. Se fossem iguais, não existiriam dois banheiros diferentes.
-- E por que você acha que é diferente?
-- Puxa, mãe, você sabe. Homem e mulher é diferente. Eu tenho que explicar tudo sempre pra você.

A mãe não gosta da resposta. Olha para filha com ar de reprovação.

A mãe insiste:
-- Banheiro é tudo igual.

A filha retruca:
-- Então você já entrou no banheiro dos homens. Se você diz que é tudo igual é porque já entrou. Peguei você!!

A mãe olha para a menina... ameaçando um sorriso :) Ficam em silêncio.

Dois minutos depois, volta a filha:
-- Eu queria ver como é o banheiro dos homens por dentro.

O alto-falante chama o meu vôo e eu tenho que sair.
Pelo visto a conversa entre elas vai longe :)

Tatuagem

Entro no táxi em Congonhas. O motorista é jovem, todo tatuado com imagens de fuzis e metralhadoras nos braços, usa cavanhaque e tem expressão muito séria. Me chama de senhor. Fez questão de pegar minha mala e colocar no bagageiro. Um "gentleman". Vejo uma miniatura de luva de boxe pendurada no retrovisor. Tem um pequeno tablet preso na frente do odômetro onde entram dezenas de mensagens durante toda minha viagem, sempre em silêncio.
Ao sair com o carro do aeroporto, ele fecha os vidros, liga o ar condicionado, silêncio quase total dentro do cubículo... e coloca uma música clássica absolutamente espetacular, em alta fidelidade.
Foi uma das melhores viagens de táxi que já fiz. Pela primeira vez gostei muito de estar num engarrafamento.

Táxi

Entro no táxi em Congonhas, às 7h20 da manhã. 
Na direção uma senhora, bem maquiada, óculos escuros grandes, cabelo vermelho escuro, unhas vermelhas, muito bem vestida, com brincos, cordão, pulseira e relógios dourados. Enfim, super produzida. O carro é um corolla automático. Um som alto dentro do carro. Tocava música sertaneja. Saiu do aeroporto com os vidros abaixados falando com todo mundo, dando adeusinhos e sorrindo. Pareceu estar de bem com a vida. Diante do meu pedido, ela respondeu: "posso fazer um caminho alternativo? O trânsito está complicado hoje". E partimos. Ao longo do caminho ela zapeou o rádio dezenas de vezes. E comentou: "tá cada vez mais difícil achar música boa". Passou boa parte da viagem no seu iPhone trocando mensagens. Lá pelas tantas, notando que eu prestava atenção no que fazia, ela se virou e disse: "É meu netinho, ele faz anos hoje. É lindo. Quer ver?"

Uniforme

Ponte aérea de hoje das 6h10 da manhã.

Passa a atendente falando alto que o vôo das 6h10 está fechando e perguntando se tem alguém nas filas ainda esperando para fazer checkin nesse vôo.
Uma senhora, na fila ao lado, chama a atendente e mostra um papel impresso. Enquanto a atendente da Gol olha o papel, a senhora fica olhando a atendente por inteiro, e diz: "Uniforme novo?" Com as pontas dos dedos, a senhora toca a pontinha da gola da blusa, tinindo de nova, como se estivesse tentando descobrir o tipo de tecido.
A atendente responde sorrindo: "Como a senhora sabe que é novo?"
A senhora olha por cima dos óculos e diz: "Olha só, ainda está vincado. É a primeira vez que você usa. Está muito bonito, mas a cor é muito forte". Ainda sorrindo, a moça exclama: "é a cor da companhia".
As duas continuam falando por quase um minuto. No final, a senhora diz que está viajando para ver o filho "que trabalha na outra cidade", que "ele paga a passagem" e "que gostaria que ele morasse na mesma cidade dela". Por fim, ela abre a bolsa, tira um tupperware, pega um brigadeiro e dá para a atendente, dizendo: "Esse tupperware inteirinho é para meu filho, ele adora brigadeiro, mas ele está gordinho, por isso um brigadeiro não vai fazer falta e você foi muito atenciosa comigo".

1969: O mundo estava na Guerra Fria enquanto minha cabeça estava na Lua

Lembro que há alguns anos, num treinamento gerencial, o instrutor pediu para que cada participante trouxesse consigo uma imagem que tivesse marcado a adolescência e que ainda continuasse na mente. A maioria levou fotos da família, da primeira namorada ou namorado, do cachorro e até da escola. Eu fui o único que levou a imagem da pegada do primeiro homem na Lua.
   
Eu tinha exatos 9 anos quando o Neil Armstrong pisou na Lua pela primeira vez. Aquilo parecia um sonho. Eu ficava olhando a Lua, tentando ver a silhueta do homem que naquele momento estava por lá. Passei parte da minha infância sonhando em ser astronauta, adorava brincar de foguete e estudava astronomia. Eu sabia de cor e salteado os nomes das luas de Saturno, os nomes das galáxias no céu e todas as missões lunares.
  
Nem passava pela minha cabeça que a corrida espacial não era algo somente idealista e desbravador. Era, na verdade, uma das frentes da intensa batalha política e militar entre americanos e soviéticos. O mundo estava na Guerra Fria enquanto minha cabeça estava na Lua. Meu interesse pelo assunto foi despertado quando li que a URSS tinha enviado, em 1957, o primeiro ser vivo para o espaço. Era a cadela Laika. Na minha imaginação, eu pensava numa cadela linda, entrando na aeronave espaçosa, com o rabo abanando de alegria e voltando do espaço, feliz, para o seu dono. Somente décadas depois é que fui descobrir que a Laika foi enviada pelos soviéticos para morrer no espaço. Ela embarcou numa cápsula super-apertada, numa viagem sem volta, já programada dessa maneira. Não foi acidente. Essa era a missão. Enfim, ela era uma mártir e eu não sabia.
   
Na minha cabeça de hoje, a pegada lunar é a imagem de um tempo onde eu sonhava. Sonhava com um mundo diferente, num futuro distante e quase inatingível. Depois que virei adulto, a vida e a dura realidade cuidaram para eu guardar essa imagem no fundo do baú da minha memória.
  
A imagem da pegada lunar voltou a minha mente hoje quando soube da morte de Neil Armstrong,  meu herói. A foto da marca deixada por sua bota me fez sonhar de novo, mas só um pouquinho, é verdade.
  
Tenho a impressão que a juventude dos dias de hoje sonha pouco. Será mesmo? Quando sonham, o futuro sonhado é mais próximo e pragmático. É um futuro quase imediato. O mundo apressado, conectado, online, abundante e acesso fácil à informação faz a gente não se desgrudar da realidade. Quando a gente começa a sonhar, aparece um whataspp ou twitter para fazer a gente pousar de novo na Terra. Ou seja, o módulo lunar não decola. No mundo atual, certamente eu não levaria décadas para saber que a Laika decolou rumo à sua morte. Talvez apenas alguns minutos.
  
Na minha infância, eu brincava nos terrenos baldios, nas praças e nos parques. Era lá que encontrava os meus amigos e falávamos da vida. Era sempre a mesma turma. Quase sempre jogando futebol com bola murcha e tênis velho, as vezes jogando bolinha de gude. Viajar era algo especial e, quase sempre, inesquecível.
  
A infância de hoje é repleta de tecnologia. Os facebooks da vida são os terrenos nada baldios de hoje. Falamos com um número enorme de pessoas que não conhecemos e que, muitas vezes, são chamados de amigos após poucas horas de relação virtual. Joga-se games tecnológicos o tempo todo. E viajar… bem, viajar, é algo que fazemos quase todos os dias na web. Estamos o tempo todo descobrindo o desconhecido na rede. O mundo perdeu suas fronteiras.
  
Por favor, não entendam mal. Eu não estou afirmando que o mundo de hoje é pior que antigamente. Longe disso. Acho que vivemos num mundo mais democrático e mais consciente de suas mazelas e desafios. Mas não posso deixar que senti hoje, ao lembrar da imagem da pegada da lua, que o mundo está menos sonhador.

Recepção

Ao sair do trabalho, na recepção do prédio, vejo a senhora da limpeza. Eu passo andando e ela continua varrendo o chão, nem me olha, está com a cabeça baixa.
Passo por ela e, de repente, ouço algo assim: "si-ú-tu-móó-rou". Foi quase um sussurro.
Minha reação foi parar e olhar para trás. Ela não se vira. Estamos apenas nós dois no espaço da recepção. Ela repete: "SI-Ú-TU-MÓÓ-ROU ???". Agora ela falou mais alto e num tom de interrogação.
Ahhhh, pensei comigo, ela está falando em inglês (see you tomorrow?).
Eu respondo rápido: "Yes".
Ela se vira e sorri, dizendo: "Estou fazendo aulas de inglês".

Bom trabalho

Cedo, no prédio para uma consulta com a dentista.

Chego no térreo, uma moça já dentro do elevador segura a porta para que eu entre. Eu agradeço e digo "bom dia". Dentro do cubículo, além de nós dois, havia um rapaz de mais ou menos 25 anos. O elevador sobe. Ao chegar no segundo andar, a moça sai e fala: "bom trabalho". Eu fico calado, mas o jovem ao meu lado retruca baixinho: "eu não trabalho, vivo de renda". Chego no terceiro andar, já saindo do elevador eu olho pra ele e falo: "Então, boa renda pra você".

Genilson

Na enooooorme fila do supermercado.

Chega o senhor esbaforido com o carrinho cheio. A mulher já está na fila esperando o marido. Ela olha o carrinho do marido e fala: "Genilson, onde estão as coisas que pedi para você comprar?"


O senhor bota a mão no bolso da bermuda e tira um papel amassado, mostra para mulher e diz: "Olha só, comprei tudo que está aqui" - e aponta para a folha de papel.

A mulher franze a testa, encara ele e fala: "Vira o papel, Genilson".

Ele vira o papel e reage surpreso: "Caramba, eu não tinha visto o outro lado da folha".

A mulher exclama: "Você só comprou o lado de trás da lista. Corre Genilson, você só tem 10 minutos porque já estou perto do caixa" - e o "pobre" do Genilson sai correndo no supermercado super lotado.

Já estou passando as coisas no caixa, quando a moça do caixa diz pra mim: "O senhor comprou 3 garrafas de mate. A promoção permite o senhor levar a quarta garrafa de graça. Pode ir buscar lá dentro. Aí eu saio correndo pra dentro do supermercado pensando: "Espera por mim Genilson..."

Raio-x

Aeroporto de Congonhas. O cara de terno todo elegante é parado na máquina de raio-x. O senhor tem que tirar os sapatos para passar na máquina e aí surgiu ele, todo imponente: o dedão do pé totalmente de fora naquela velha meia preta furada.

Pergunta


Na sala de espera de Congonhas...
O menino vira pra mãe e pergunta: "Mãe, como o avião consegue voar se ele é pesado?"
A mãe olha pro filho, faz cara de conteúdo e dá uma longa resposta começando por Santos Dumont, 14bis, etc, etc, etc. Depois de muito tempo o filho responde: "mas, mãe, você não me respondeu como o avião consegue voar".
A mãe olha pra ele, e deve ter pensado: "êta filho inteligente". Com olhar inseguro, a mãe fala pro filho fazendo movimentos com a mão: "O avião faz assim com a asa e o vento embaixo da asa levanta o avião".
O menino sorri, com os olhos pra cima, pensando... parece que a explicação da mãe convenceu. Aí ele se vira pra mãe e pergunta: "Mãe, se eu virar as mãos assim, e sair correndo, eu consigo voar?"

Paletó

Saio do trabalho no Rio, de mala, alguém se vira pra mim e diz: "vai para onde assim? Tá muito formal hoje... está o maior calor lá fora", e olha para o meu paletó. Respondo que estou indo para São Paulo.
Chego em São Paulo e alguém me diz: "Tá a vontade, hein carioca? Todo informal". Olha para a minha calça jeans e nem liga para o paletó de algodão.
E assim a gente vai levando